Cacique Raoni enfrenta câncer agressivo aos 94 anos
Por Luizão —

Cacique Raoni, de 94 anos, enfrenta câncer agressivo e segue em cuidados paliativos domiciliares, com acompanhamento médico e apoio da família.
O cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, foi diagnosticado com um câncer agressivo no aparelho digestório. Segundo informações divulgadas pelo Instituto Raoni, ele permanece em cuidados paliativos, com acompanhamento médico e assistência domiciliar junto à família, em Peixoto de Azevedo.
Uma das principais lideranças indígenas do Brasil e referência internacional na defesa dos povos indígenas, dos territórios e da floresta, Raoni passou por um período delicado de saúde ao longo de 2026, marcado por internações, exames, agravamentos clínicos, transferência para São Paulo, cirurgia e posterior acompanhamento paliativo.
Investigação começou após dores abdominais
Os primeiros sinais de agravamento surgiram após Raoni apresentar dores abdominais persistentes. Ele foi inicialmente atendido no Hospital Regional de Peixoto de Azevedo e depois transferido para o Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop, onde exames identificaram uma alteração na região infra-hepática, com suspeita de processo expansivo intestinal ou hepático avançado.
Naquele momento, a equipe médica adotou uma abordagem voltada ao controle dos sintomas e ao acompanhamento do quadro, considerando a idade do cacique, seu estado geral e outras condições clínicas.
Obstrução intestinal levou à transferência
Em 13 de junho de 2026, Raoni apresentou vômitos intensos e precisou novamente de atendimento médico. No dia seguinte, foi transferido para Sinop, onde exames apontaram uma obstrução intestinal na altura do duodeno, provocada pelo tumor.
A lesão foi confirmada por endoscopia digestiva alta. A biópsia não foi realizada naquele momento devido às condições clínicas e ao risco de sangramento. O período de internação também envolveu desidratação, alterações renais, infecção e pneumonia aspirativa.
Após avaliação conjunta das equipes do Hospital Dois Pinheiros e da Gastrocirurgia da Universidade Federal de São Paulo, foi indicada a transferência para o Hospital São Paulo, da Unifesp.
Cirurgia confirmou adenocarcinoma
Raoni foi levado para São Paulo em 19 de junho, em aeronave disponibilizada pelo Governo de Mato Grosso. No dia seguinte, passou por uma gastroenteroanastomose por videolaparoscopia, procedimento destinado a criar uma nova passagem no sistema digestivo para contornar a área obstruída pelo tumor.
O objetivo da cirurgia não era retirar o câncer, mas aliviar a obstrução e melhorar as condições de alimentação e conforto. O exame anatomopatológico realizado posteriormente confirmou um adenocarcinoma pouco diferenciado, considerado de comportamento agressivo.
As equipes avaliaram as possibilidades terapêuticas levando em conta a localização e o tamanho da neoplasia, a idade avançada de Raoni e outras condições de saúde. Ele possui marcapasso, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, doença pulmonar obstrutiva crônica e hérnia diafragmática traumática crônica.
Tratamento passou a priorizar cuidados paliativos
Diante dos riscos elevados associados a tratamentos com objetivo curativo, como cirurgias de maior porte, quimioterapia e outras terapias oncológicas, a assistência passou a priorizar os cuidados paliativos.
Essa modalidade busca controlar dores e outros sintomas, reduzir desconfortos, preservar a autonomia possível, garantir alimentação e hidratação, prevenir complicações e oferecer acompanhamento médico e de enfermagem para proporcionar a melhor qualidade de vida possível.
O cuidado também considera a importância de Raoni permanecer próximo da família e de seu povo, mantendo sua língua, referências culturais e práticas espirituais.
Retorno a Peixoto de Azevedo
Após a internação em São Paulo, Raoni recebeu alta em condições estáveis em 14 de julho. No dia seguinte, retornou para Peixoto de Azevedo em uma aeronave disponibilizada pelo Ministério dos Povos Indígenas.
Depois do retorno, foi estruturada uma equipe de assistência domiciliar com quatro técnicos de enfermagem e uma fisioterapeuta, além de apoio de nutricionista e supervisão de enfermagem da CASAI de Peixoto de Azevedo. O Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas da Unifesp também passou a oferecer suporte por Telessaúde.
Nova internação após hemorragia
Entre 30 de julho e 1º de agosto, Raoni sofreu uma hemorragia digestiva alta, acompanhada de queda importante do hematócrito. Ele foi novamente internado no Hospital Regional de Peixoto de Azevedo, onde recebeu tratamento clínico, medicamentos e transfusões de sangue.
Após mais de 72 horas sem novas evidências de sangramento ativo, o quadro voltou a ser considerado regular e estável. A assistência continuou envolvendo suporte clínico, nutricional, fisioterapêutico e de enfermagem.
Família e pajés acompanham o cacique
Além do atendimento médico, Raoni recebe cuidados de pajés de sua confiança, respeitando as tradições e a cultura Mẽbêngôkre. A dimensão espiritual acompanha o tratamento e integra a rede de cuidados escolhida pelo cacique e por seus familiares.
Atualmente, sua condição permanece delicada e exige acompanhamento contínuo. O tratamento segue concentrado nos cuidados paliativos, com atenção à dor e a outros sintomas, alimentação, hidratação, fisioterapia, medicamentos e monitoramento de possíveis complicações.
A assistência envolve familiares, Instituto Raoni, equipes do DSEI e da CASAI de Peixoto de Azevedo, profissionais da Unifesp, Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, Hospital Regional de Peixoto de Azevedo e a rede de pajés e especialistas espirituais de confiança do cacique.