Master repassou R$ 5,7 bi antes de ser liquidado
Por Luizão —

Documentos mostram que banco cedeu créditos considerados atípicos pelo Banco Central a fundos e ao BRB antes do prazo legal de liquidação.
O Banco Master repassou R$ 5,7 bilhões em créditos que já haviam sido apontados como atípicos pelo Banco Central meses antes, segundo documentação apresentada pelo liquidante na Justiça. As operações constam em uma lista enviada ao processo que busca reaver bens da instituição.
Os créditos foram transferidos a fundos de investimento e ao BRB (Banco de Brasília) entre junho e agosto de 2025, todos antes do prazo de 60 dias que antecede a liquidação, fixado em 19 de setembro. Esse período, chamado de 'termo legal', marca a data a partir da qual a legislação de falências permite anular operações feitas para prejudicar credores; repasses anteriores só podem ser desfeitos por ação judicial.
Empréstimos já sob suspeita
Os R$ 5,7 bilhões correspondem a 16 empréstimos que a fiscalização do Banco Central já havia identificado como atípicos em agosto de 2024, envolvendo fundos ligados ao banco, como o D Mais e o Bravo. Segundo a avaliação do BC, essas operações não tinham função real de crédito: o cliente tomava um valor alto e era obrigado a aplicar o dinheiro em um fundo do próprio grupo. Procurado, o Banco Master não respondeu.
Como funcionou a cessão de créditos
Uma cessão de crédito ocorre quando uma instituição financeira compra de outra o direito de cobrar uma dívida. Em parte dos casos, os créditos do Master foram cedidos a empresas do mesmo grupo econômico, o que contraria a legislação do Sistema Financeiro Nacional. Ao retirar esses valores do balanço, a instituição de Daniel Vorcaro dificultava o rastreamento do dinheiro, prática que a Polícia Federal descreve como pulverização e reempacotamento de ativos.
A maior parte da movimentação, R$ 2,9 bilhões, passou pelo fundo Máxima 2, do próprio Master, transferidos em agosto de 2025 e resgatados em outubro, já perto da liquidação. Outros R$ 1,6 bilhão foram repassados a três fundos ligados à Reag Investimentos, gestora sob suspeita de conexão com o PCC e com o Master; nesses casos, segundo a lista do liquidante, os fundos sequer chegaram a pagar pela cessão.
Duas operações de R$ 468,8 milhões cada, tomadas pela importadora BMQ Mirage e pela indústria de laticínios Daus, com dois dias de diferença, são apontadas pelo BC como potencialmente fictícias, com objetivo de desviar recursos do banco. A Reag, procurada, disse que não comentaria.
O restante, cerca de R$ 1 bilhão, foi vendido ao BRB, que hoje cobra do liquidante o repasse de aproximadamente R$ 4 bilhões referentes às carteiras compradas do Master. Em nota, o banco público informou que os ativos foram recebidos pela gestão anterior no contexto da negociação com o Master, e que a nova administração vem adotando as medidas necessárias para tratar desses ativos conforme suas normas internas e exigências regulatórias.
Lista maior de operações
Os R$ 5,7 bilhões fazem parte de um levantamento mais amplo: ao todo, o liquidante relacionou 112 operações de crédito cedidas pelo Master a terceiros, somando R$ 10,2 bilhões.
O maior tomador da lista é a Lormont Participações, com 18 operações desde 2022, totalizando R$ 1,18 bilhão. A empresa é controlada por Nelson Tanure, investigado sob suspeita de ser sócio oculto do Master. Em nota, Tanure negou ser controlador do banco e afirmou que os créditos tomados por seus veículos de investimento sempre foram quitados regularmente, dizendo desconhecer qualquer cessão feita pelo Master.
Casos específicos
Entre as operações citadas está um empréstimo de R$ 336 milhões a executivos da Biomm, empresa de biotecnologia fundada pelo ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, cedido em maio de 2024 ao Banco Voiter, adquirido dois meses antes pelo próprio Master. Mares Guia afirmou ao UOL que usou o dinheiro para aumentar o capital da empresa, que construía uma fábrica de insulina inaugurada em abril de 2024, e que a dívida, hoje com o Banco Pleno, só vence em 2029.
A lista também inclui um crédito de R$ 5,5 milhões a Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que classificou a operação como um financiamento imobiliário. Segundo a contabilidade do Master, esse valor, somado a outros R$ 23 milhões, teria sido cedido à Urbaniza Empreendimentos e Participações, do corretor mineiro Aroldo Rodrigues da Silva. A data registrada para essa cessão coincide, porém, com o dia em que Sidney afirma ter quitado a dívida junto a outra empresa ligada ao Master, a Cannes Consultoria. Sidney negou qualquer relação com a Urbaniza e disse ter sido informado da cessão apenas após a repercussão do caso na imprensa. Fontes ligadas à investigação suspeitam que o registro possa ser fictício.
Pedido de sigilo
Após a repercussão sobre parte dos empréstimos, o escritório que representa o liquidante informou à Justiça que terceiros citados no relatório de cessões vêm prestando esclarecimentos sobre as operações, e pediu sigilo ao processo. Isaac Sidney confirmou ter prestado esclarecimentos após descobrir seu crédito na lista, mas disse não ter condições de afirmar se a cessão teve finalidade lícita ou ilícita.