Mensagens revelam relação de Moraes com Vorcaro
Por Luizão —

Registros extraídos do celular do banqueiro mostram cobrança por pagamentos ao escritório da esposa do ministro e pedidos de ajuda em investigações.
Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam uma série de interações com um contato salvo como Alexandre de Moraes, apontando possíveis trocas entre o banqueiro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), além de contatos com pessoas ligadas à família do magistrado.
Os diálogos mostram que Vorcaro cobrava atenção especial aos pagamentos de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Sigilo suspenso
As mensagens, reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo, tiveram o sigilo suspenso por decisão do ministro André Mendonça nesta terça-feira (1º/9). No dia anterior, ele havia dado prazo de cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analise o relatório da Polícia Federal sobre a relação entre Moraes e Vorcaro e se manifeste sobre eventual abertura de investigação contra o ministro.
Na decisão, Mendonça afirmou que o caso deverá ser submetido ao plenário do STF, em sessão pública a ser marcada pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, após a manifestação da PGR.
Cobrança por pagamentos ao escritório
Em um dos episódios revelados, Vorcaro tratou diretamente da execução do contrato com o escritório Barci de Moraes. Em fevereiro de 2024, cobrou o envio do documento assinado e questionou a data do primeiro pagamento. No mesmo período, um funcionário do banco confirmou uma transferência de mais de R$ 3,4 milhões para a conta do escritório.
Diante de um atraso posterior, Vorcaro pressionou a equipe do banco para que os pagamentos ao escritório fossem sempre priorizados e feitos sem qualquer demora, chegando a orientar que fossem realizados de qualquer forma. A análise dos metadados do arquivo do contrato também apontou que o documento havia sido editado pelo próprio Moraes.
Resposta do escritório
Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou o ministro sobre eventuais impedimentos legais para a contratação, já que ele é marido da sócia-diretora da banca. Segundo a nota, não foi identificada previsão de atuação de Moraes no STF sobre o caso, nem qualquer impedimento, e o ministro nunca julgou causa envolvendo o Banco Master.
Pedidos de interferência
As mensagens também indicam que Vorcaro teria pedido a Moraes que intercedesse junto ao diretor da Polícia Federal, Andrei Neto, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O pedido teria ocorrido em outubro do ano passado, após o banqueiro receber informações de que a direção do Banco Central estaria sob pressão para agir contra o Master, que acabou liquidado em novembro.
Segundo a Polícia Federal, os dois se comunicavam por meio de prints de mensagens com visualização única, o que impediu a recuperação das respostas de Moraes. Ainda assim, foi possível identificar o envio das mensagens escritas por Vorcaro ao celular do ministro.
Prisão do banqueiro
Outra troca de mensagens indica que Moraes teria discutido com o banqueiro a possibilidade de deflagração da Operação Compliance Zero e estratégias para tentar frustrar o cumprimento de uma ordem de prisão preventiva. Dias antes de ser preso, em novembro de 2025, Vorcaro questionou o ministro sobre o andamento do caso e sobre eventual antecipação da medida.
O controlador do banco foi preso preventivamente em novembro, sob acusação de fraudar R$ 12,2 bilhões do sistema bancário. Mesmo após a prisão, novas trocas de mensagens indicam que o banqueiro seguiu buscando informações sobre o processo.
Cartões de crédito para os filhos do ministro
O jornal também revelou um episódio envolvendo a emissão de cartões de crédito do Banco Master para os filhos do ministro, Giuliana e Alexandre Barci de Moraes. Segundo os diálogos, em outubro de 2025, um administrador do escritório Barci de Moraes contatou Vorcaro para tratar da emissão dos cartões, que acabaram concedidos com limite de R$ 300 mil para cada um.
Almoço em Campos do Jordão
As mensagens indicam que Vorcaro e Moraes teriam se aproximado no fim de 2023, quando o ministro participou de um almoço em uma propriedade do banqueiro em Campos do Jordão, levando oito pessoas e quatro seguranças. Os diálogos mostram Vorcaro orientando funcionários a preparar uma recepção especial para o evento.
Cerca de duas semanas depois, o primeiro contrato entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o banqueiro foi enviado, sendo assinado no valor de R$ 3,6 milhões mensais, com vigência de três anos. Os metadados do documento mostram que Alexandre de Moraes foi o último a editar a versão final do contrato antes da assinatura.