PF aponta saques milionários e mudança de padrão no TCE

Por Luizão —

Relatório da Polícia Federal analisa saques em espécie realizados em agência bancária nas dependências do TCE-MT.
Relatório da Polícia Federal analisa saques em espécie realizados em agência bancária nas dependências do TCE-MT.

Relatório da PF aponta saques milionários no TCE-MT e mudança nas movimentações após visita de agentes em 2025; suspeitas ainda são investigadas.

A Polícia Federal identificou saques de grandes quantias em dinheiro na agência da cooperativa Sicoob instalada no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) e uma mudança no padrão dessas movimentações após uma diligência realizada em outubro de 2025. As informações constam de relatório da investigação citado em reportagem publicada na sexta-feira (30).

Segundo a apuração, imagens de câmeras de segurança registraram a atuação de Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes, ligados ao gabinete do então presidente da Corte, Sérgio Ricardo de Almeida, em retiradas de valores em espécie. Os três estão entre os investigados na Operação Tomada de Contas.

Visita de agentes e alteração nos saques

Em 14 de outubro de 2025, dois policiais federais estiveram na agência bancária para observar seu funcionamento. Conforme o relatório citado, os agentes presenciaram uma movimentação em que Roseli teria retirado dinheiro, posteriormente guardado por Adriangelo em uma mochila. Um dos policiais foi abordado pela segurança do tribunal quando acompanhava a movimentação fora da agência, e a diligência foi interrompida.

Para os investigadores, a presença policial pode ter levado os envolvidos a perceber que estavam sendo monitorados. A PF relata que, após aquela data, houve uma interrupção das retiradas frequentes de valores elevados, embora os créditos bancários tenham permanecido expressivos e parte dos recursos tenha passado a circular por transferências a terceiros. Essa interpretação é uma hipótese investigativa, não uma conclusão judicial definitiva.

A reportagem informa que Roseli voltou a realizar saques em 11 e 14 de maio de 2026, com movimentações de R$ 100 mil mencionadas no relatório. A investigação também registra que ela figurava como procuradora das contas bancárias de Sérgio Ricardo na cooperativa.

Valores sob investigação

Uma comunicação de operações suspeitas analisada pela PF aponta 144 saques entre janeiro e 29 de setembro de 2025, totalizando R$ 14,1 milhões, com retiradas individuais de até R$ 490 mil. O relatório também menciona operações de R$ 500 mil em 30 de setembro e de R$ 490 mil em 8 de outubro daquele ano.

Conforme a reportagem, os investigadores estimam que Roseli tenha recebido mais de R$ 3,5 milhões e Adriangelo mais de R$ 2,2 milhões no período analisado. Esses montantes são apontados pela investigação e não devem ser tratados como desvios comprovados.

Sérgio Ricardo afirmou que os recursos movimentados teriam origem em pagamentos retroativos relativos ao período em que esteve afastado do tribunal. A PF questiona a compatibilidade dos valores com os registros de remuneração e investiga a possibilidade de utilização de pagamentos a fornecedores e ordens bancárias para movimentar recursos públicos de forma irregular.

Operação Tomada de Contas

A operação foi deflagrada em 29 de outubro de 2026, com autorização do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Entre as medidas estão prisões preventivas, buscas e afastamentos de integrantes da Corte. A investigação apura possíveis crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As suspeitas ainda estão sob apuração. A existência de registros de saques e movimentações bancárias não comprova, por si só, a origem ilícita dos recursos ou a responsabilidade criminal dos investigados, que têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.